Heurísticas e Vieses Cognitivos: Cuidado ao julgar a incerteza

vieses cognitivos
Erros sistemáticos podem afetar suas decisões de investimentos (sem ao menos você saber porque!).

Muitas vezes, durante processos de tomadas de decisão,  os investidores formam crenças e julgamentos pessoais apoiados em atalhos mentais (os chamados vieses cognitivos) que os levam a cometerem erros sistemáticos.

A única coisa que todo mundo concorda é que o mercado financeiro é rodeado por incertezas. E, ao julgar essa incerteza, os investidores terminam cometendo diversos erros nas suas tomadas de decisão.

Compreender como funciona a sua mente durante os processos decisórios é de suma importância para todos investidores.

Quais são os fatores que influenciam decisivamente a tomada de decisões?

Desde os trabalhos de Kahneman e Tversky publicados a partir de 1972, os pesquisadores têm descoberto empiricamente vários tipos diferentes de vieses que afetam de forma relevante a tomada de decisões financeiras Esses estudos fazem parte de uma área conhecida como finanças comportamentais, que mescla psicologia e mercado financeiro.

Estudar heurísticas e vieses pode ajudar a detectar armadilhas mentais que podem levar a erros decisórios no âmbito dos investimentos.

O que você vai aprender neste artigo:

  • Porque temos a tendência de julgar as situações usando atalhos mentais
  • Como informações fáceis, preconceitos e dificuldade de aceitar mudanças nos levam a cometer erros sistemáticos
  • Porque vieses cognitivos são mais comuns do que imaginamos (e geram péssimas decisões em ambientes de incerteza)

Heurísticas

Heurísticas
Heurísticas são como atalhos que fazemos em nossas decisões.

Heurísticas são atalhos mentais que facilitam a tomada de decisão.

São regras de bolso, ou estratégias, que agilizam e simplificam a percepção e a avaliação das informações, conduzindo à decisões adequadas.

Isoladamente as heurísticas não representam algo ruim. Por exemplo, quando precisamos tomar diversas decisões complexas de forma rápida, as heurísticas possuem papel fundamental, pois viabilizam escolhas adequadas, embora imperfeitas.

Ou seja, as heurísticas simplificam enormemente a tarefa de tomar decisões.

Mas, nem tudo são flores e o mundo cor de rosa no âmbito da mente humana.

As heurísticas podem nos induzir a erros de percepção, avaliação e julgamento que escapam à racionalidade ou estão em desacordo com a teoria da estatística.

Esses erros ocorrem de forma sistemáticaprevisível, em determinadas circunstâncias, e são chamados de vieses cognitivos.

Em sua pesquisa inicial, Tversky e Kahneman propuseram três heurísticas – disponibilidade, representatividade e ancoragem e ajuste. Trabalhos posteriores identificaram muitos mais. Confira:

#1 – Heurística da Representatividade

Representativeness heuristics

A heurística da representatividade tem como característica a classificação de uma coisa com base na semelhança com um caso típico ou comum.

Ou seja, pode ser devido a maneira como a pessoa se veste, o jeito como usa o cabelo, suas tatuagem, etc. Isso tudo nos faz pensar em algum caso típico que, na verdade, talvez não revele nada sobre a pessoa.

Isso pode levar a um viés, encontrando incorretamente relações causais entre coisas que se assemelham umas às outras e perdendo-as quando a causa e o efeito são muito diferentes.

O exemplo dessa heurística foi o assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes de 27 anos, morto após ter sido confundido com um terrorista segundo as autoridades britânicas. Acabaram confundindo o brasileiro com um dos terroristas devido a maneira como ele estava vestido, tipo de aparência, etc.

#2 – Heurística da Disponibilidade

Availability heuristics

Processo de julgar a frequência de dados segundo a facilidade com que similaridades vêm à mente, dada à limitada capacidade de manter concentração e esforço mental ao mesmo tempo

Quando um evento infrequente pode ser trazido facilmente e vividamente à mente, as pessoas tendem a superestimar sua probabilidade.

Por exemplo, as pessoas superestimam sua probabilidade de morrer em um evento dramático, como um tornado ou terrorismo. Mortes dramáticas e violentas são geralmente mais divulgadas e, portanto, têm uma maior disponibilidade.

Esta heurística é uma das razões pelas quais as pessoas são mais facilmente influenciadas por uma história única e vívida do que por um grande número de provas estatísticas.

Pode também desempenhar um papel no apelo das loterias: para alguém comprando um bilhete, os vencedores bem divulgados e jubilosos estão mais disponíveis do que os milhões de pessoas que não ganharam nada.

Essa heurística também é conhecida como “Lei dos Números Pequenos”, é a tendência de generalizar e tirar conclusões de poucas amostras, que não representam um todo.

É fácil observar que muitos investidores tendem a usar essa heurística para embasar suas decisões de investimentos.

Por criarem uma tendência forte de generalizar a partir de poucas amostras, os indivíduos tem uma percepção estreita dos risco e são mais propensos a cometerem erros.

#3 – Heurística de Ancoragem e Ajustamento

Anchoring and adjustment heuristics

A heurística da ancoragem e ajustamento pode ser definida como uma tendência que dificulta a pessoa de modificar o julgamento inicial de forma que este se ajuste às novas informações porventura recebidas.

A heurística de ancoragem e ajustamento corresponde a julgamentos sob incerteza, quando as pessoas devem realizar estimativas ou decidir sobre alguma quantia, elas tendem a ajustar a sua resposta com base em algum valor inicial disponível, que servirá como âncora. A âncora proposta pode influenciar a resposta final.

A ancoragem ocorre, também, quando o indivíduo baseia sua estimativa no resultado de um cálculo incompleto.

Embora a heurística de ancoragem e ajustamento possa ser freqüentemente útil em julgamentos e decisões, uma vez que possibilita uma economia de tempo e não demanda tanto esforço cognitivo, também pode levar a vieses.

O julgamento pode ser enviesado em direção a uma âncora irrelevante (como, por exemplo, um número arbitrário fornecido pelo pesquisador).

Vieses Cognitivos

Viés Cognitivo
Os vieses cognitivos podem nos levar a cometer erros ao tentarmos seguir por um atalho mental.

Vieses cognitivos são erros sistemáticos na tomada de decisão, que ocorre quando estamos processando e interpretando informações ao nosso redor.

São tendências sistemáticas de violar alguma forma de racionalidade.

Apesar de alguns vieses estarem associados especificamente a algumas heurísticas, podem estar associados a outros fatores, tais como emoções, pressões sociais, motivações individuais e limitações na habilidade mental de processar informações.

Estes erros são fruto de uma resposta incompleta, que não permite que a decisão tomada seja ótima e racional. Durante o processo decisório, é mais fácil identificar a existência de um viés do que identificar a sua causa.

Existem diversos viéses, associados a diferentes heurísticas.

Como investidor, é importante você estuda-los para compreender melhor o funcionamento do seu cérebro e porque você pode estar tomando decisões ruins em seus investimentos.

Confira abaixo o exemplo de cinco vieses cognitivos que teimam em nos afetar em algum momento.

#1 – Viés do Excesso de Confiança

Overconfidence effect

É a tendência que leva a pessoa a confiar excessivamente em seus próprios conhecimentos e opiniões, além de superestimar sua contribuição pessoal para a tomada de decisão, tendendo a acreditar que sempre está certa em suas escolhas e atribuindo seus eventuais erros a fatores externos.

Dentre os motivos do qual deriva esse viés é de acreditarmos que a informação em nosso poder é suficiente para a tomada de decisão.

Isso gera uma tendência de acreditar que somos mais inteligentes em controlar os eventos e riscos do que realmente somos ou que possuímos capacidade de análise acima da média dos outros agentes do mercado.

#2 – Viés do Status Quo

Status quo bias

É a tendência a preferir manter as coisas na situação em que estão, seja por não fazer nada ou por insistir em uma decisão já tomada, ainda que mudar represente a escolha mais proveitosa.

O comportamento de manter o status quo é comum em várias áreas.

Por exemplo, quando alguém instala um software, se depara com configurações padrões e, como não sabe o que fazer, mantém o software do jeito que está. E, nesse caso, geralmente é a melhor conduta.

Porém, escolher não fazer nada também é uma escolha.

A zona do conforto convida o investidor a preferir não agir quando, em determinadas situações, ele deveria agir.

#3 – Viés da Ilusão de Controle

Illusion of control bias

Ocorre quando indivíduos equivocadamente pensam que têm o controle de uma situação e na verdade não têm. Isso torna as pessoas mais otimistas sobre os resultados esperados e mais confiantes na precisão de suas previsões.

A ilusão de controle seria uma reação dos indivíduos para aliviar o desconforto frente à incerteza.

Esse viés é muito comum nos investimentos.

Muitas vezes achamos que temos controle da situação, mas na verdade não temos.

O Mercado é soberano e pode nos esmagar se nossa mente não estiver atenta e consciente.

#4 – Viés do Otimismo

Optimism bias

É a tendência a superestimar a probabilidade de eventos positivos e subestimar o risco de ocorrerem eventos negativos em nossa vida.

Veja, bem, quando nos projetamos no futuro, temos uma maior tendência a acreditar que seremos ricos e saudáveis. É bem melhor (e mais confortável) do que a pensar que podemos sofrer um acidente, contrair uma doença ou perder o emprego.

Mas, será mesmo que vai ser assim?

Esse viés nos faz acreditar que nosso futuro será melhor do que o passado e que somos mais sortudos do que os outros.

Isso faz com que o fumante ache que nunca irá contrair um câncer de pulmão ou que o praticante de esportes radicais pense que sua chance de sofrer uma lesão é pequena, ainda que ambos conheçam bem as estatísticas.

É aí que mora o perigo.

#5 – Viés da Informação

Information bias

A tendência para buscar informações mesmo quando não pode afetar a ação.

Em nosso mundo atual buscamos informação a todo momento. Internet, TV, livros, gurus, somos bombardeados o tempo inteiro.

Para piorar, quando vamos tomar decisões em investimentos temos que ter cuidado para não ficar buscando informação demais, muitas vezes sem sentido e sem acrescentar mais valor.

CONCLUSÕES

Por conta da incerteza que rodeia o mercado financeiro, é especialmente difícil os investidores julgarem probabilidades.

Nessas situações, o investidor forma uma crença, um julgamento pessoal, sobre qual seria o resultado esperado e sua probabilidade.

Entretanto, decisões individuais são frequentemente distorcidas por diferentes tipos de heurísticas e vieses.

Heurísticas são como atalhos de pensamento que o cérebro usa para identificar e interpretar rapidamente padrões no ambiente e guiar as ações.

Neste artigo vimos três heurísticas desenvolvidas por Kahneman e Tsversky:

  1. Heurística da Representatividade: tomada de decisões com base na semelhança com que as informações vêm à mente.
  2. Heurística da Disponibilidade: tomada de decisões com base na frequência de dados segundo a facilidade com que vêm à mente.
  3. Heurística de Ancoragem e Ajustamento: tendência de modificar o julgamento inicial de forma que este se ajuste às novas informações porventura recebidas.

As Heurísticas simplificam as decisões e podem até ser necessárias em algumas situações, embora em outras possam levar a erros sistemáticos, os chamados vieses cognitivos.

Vieses cognitivos são distorções de raciocínio, causadas pelo uso de heurísticas ao invés de análises mais profundas. São fruto de uma resposta incompleta, que não permite que a decisão tomada seja ótima e racional.

Neste artigo foi mostrado alguns dos vieses cognitivos que podem afetar o comportamento dos investidores, foram eles:

  1. Viés do Excesso de Confiança: tendência de acreditarmos que somos melhores do que a média.
  2. Viés do Status Quo: tendência de não fazermos nada ou insistir em decisões já tomadas.
  3. Viés da Ilusão de Controle: tendência de acreditarmos que estamos no comando na tentativa de aliviar a tensão em ambientes de incerteza.
  4. Viés do Otimismo: tendência de acreditarmos que as coisas vão melhorar por achismo, esperança ou otimismo, ignorando riscos.
  5. Viés da Informação: tendência de buscarmos muitas informações, mesmo que desnecessárias.

Todas os investidores são vítimas de erros cognitivos sem ao mesmo saber porque.

Nosso cérebro primitivo comete esses erros a todo momento.

Portanto, cuidado ao julgar a incerteza!

Estudar heurísticas e vieses pode ajudar a detectar armadilhas mentais que podem levar a erros decisórios no âmbito dos investimentos.

Bons investimentos!

 

Livros recomendados

 

Fontes de consulta

  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_vieses_cognitivos
  • http://www.fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/08/26/heuristica-da-representatividade/
  • http://www.wrprates.com/lista-de-vieses-cognitivos/
  • http://pensologoinvisto.cvm.gov.br/wp-content/uploads/2015/12/Serie-Vieses-Comportamentais_vol1_vieses_investidor.pdf
  • http://www.nicholasgimenes.com.br/2012/06/vieses-e-heuristicas-no-comportamento.html

Créditos da imagem: shutterstock

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